29 de outubro de 2013

Conto #2 - Eles são uns mentirosos (Continuação)

Leia primeiro: Conto #1 - Eles são uns mentirosos


Abri os olhos e tudo ao meu redor foi clareando aos poucos. Tentei ficar de pé mas caí novamente, como se estivesse de ressaca. Mas eu não bebi nada, a não ser um copo de refrigerante na última vez em que me lembro de estar acordada. Fiz mais força pra levantar dessa vez.

Vamos lá. As coisas estão voltando ao normal aos poucos. 

Consegui ficar de pé, tomando um impulso e me apoiando na cama. Olhei para o relógio quadrado retrô na parede. Eram três horas da tarde. Que dia era afinal? O quarto começou a girar, dando voltas e mais voltas, e eu fiquei enjoada. Era hora de um banho e novos planos. Uma mulher de quarenta e cinco anos tinha que ter uma vida estável e não ser uma louca. Eu não trabalhava a muito tempo, precisava colocar as coisas nos eixos. E não era dormindo no chão quase dois dias consecutivos que eu conseguiria.

Primeiro passo: Ir ao consultório do Doutor Fernando.


Entro na recepção e Isabel, a recepcionista, que já me conhece a anos, me cumprimenta. Apenas aceno com a cabeça enquanto ela me olha de cima a baixo, provavelmente se perguntando o porque de eu estar tão bem vestida: saia social de couro, scarpin preto e uma blusa de botões com babados. Não perco muito tempo me incomodando com o que ela pensa, entro na pequena sala do meu terapeuta e bato a porta atrás de mim.

_Juliana, que prazer te rever! Como você está? - Eu havia ligado perguntando se ele podia me atender às sete horas da noite - Vim pra cá com Isabel assim que você me ligou.

_Não muito bem na verdade - me sentei no sofá felpudo vermelho, puxei o pufe lateral pra frente e apoiei os pés. - Dois dias atrás tive um novo ataque e..., bem, esqueci os anos que se passaram, e me vi novamente antes do que aconteceu, sofrendo por meu ex-marido. - Abaixei a cabeça e apoiei os cotovelos nos joelhos, com as mãos no rosto, me lembrando de dois dias atrás e de todos aqueles sentimentos que me sufocaram e... da ligação que fiz a minha amiga Lena.

_Teve alguma lembrança significativa, hmm.. você sabe... do que aconteceu? - Ele me perguntou, já sabendo que eu apenas sabia do que me contavam, já que pela gravidade do acontecido, minha mente bloqueara os fatos.

_Infelizmente não, somente sei do que Bruno e Helena me contam, você já sabe. Mas já aprendi a conviver com isso eu... acho.

_Bom, Juliana, pra acabar com esses ataques, você precisa se lembrar. Você precisa saber o que realmente aconteceu.

Sim, eu me considero uma louca. Há muito tempo não me considero uma pessoa normal. Uma hora você se acostuma. É a vida. Como quando eu tinha nove anos e não ganhei a enorme casa da Barbie que eu tanto pedi aos meus pais. É essa a droga de vida!

Comecei a me lembrar de tudo que dera errado pra mim durante toda a minha vida, e não era pouca coisa. Meus pais se divorciaram, meu cachorro morreu seis meses depois, repeti no colégio no mesmo ano, perdi minha viagem de formatura e...

_Olha, tenho uma coisa para você, Juliana. - Disse meu terapeuta, me tirando dos meus devaneios.


Ele abriu a pequena gaveta à sua frente e tirou um envelope, que tinha meu nome escrito à frente em uma letra que eu jurava já ter visto, só não sabia onde. Não esperei muito, abri desesperadamente o envelope e fiquei um tanto desapontada quando vi que era apenas um bilhete pequeno. E ele dizia:


Olá Juliana,

Te conheço melhor do que você imagina. Você não deve se lembrar de mim, mas eu quero te ajudar. Ainda não posso dizer o meu nome, mas, quando estiver pronta, me telefone. (Meu cartão está dentro do envelope)

Ass.: a única pessoa que pode te ajudar a lembrar.

Olhei para o pequeno cartão azul e aquela cor me trouxe algumas sensações estranhas. Lembro-me de estar andando em lugar muito cheio, uma rua, lotada e, parecia uma festa e de repente... uma pessoa com... uma blusa azul. E foi apenas isso. Não vi seu rosto, não sei seu nome. Mas esse era um começo. Eu sabia que poderia me lembrar de tudo.

Uma carta com um cartão. Depois de mais de dez anos, essa carta, do nada, poderia mudar o meu estado de insanidade e confusão.




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